sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Deus me perdoe...

Morar em apartamento tem lá seus empecílhos. Eu que o diga. Minha vizinha com “dor de cotovelo” e suas músicas me deprimem. Sem falar dos cachorros, do Karaokê, dos gemidos liberados durante as transações sexuais e dos esportivos gritos durante os jogos. Mas nada disso supera ou chega perto das orações de Eustácio.

Onde eu moro tem mais igrejas com nomes bizarros que orelhão com defeito, e mesmo assim Eustácio criou uma de frente pro meu prédio, uma tal de “Igreja Protestante dos valores cristãos no caminho do paraiso junto com Nosso Senhor Jesus Cristo Nazareno”. Quando ele me disse o nome da religião dele eu respondi “Amém”.

Ele já tentou milhares de vezes me carregar para essa igreja e me mantive firme. Mas eles vestiram uma tática bem diferente: Usaram mulheres, minha fraqueza. Uma menina linda me chamou para entrar só como vizitante, que tentação:

-O senhor não quer conhecer? Se não gostar pode ir embora.

-Afaste-se de mim, satanás! Nem só de pão e mulheres gostosas vive o homem!

Acho que confundi a citação. É que ela era realmente linda, um pão que o diabo amassou. Após meio minuto de insistência eu me rendi. A carne é fraca. Entrei tal como Adão após comer o fruto proibido. Lá dentro encontrei Eustácio:

-Resolveu vim! Graças a Deus.

Ele me tratava como um filho pródigo voltando para casa. Um indigente convertido. Tomei a palavra:

-Como é mesmo o nome dessa igreja aqui?

-Igreja Protestante dos valores cristãos no caminho do paraiso junto com Nosso Senhor Jesus Cristo Nazareno.

-Amém!

Realmente o nome da religião já parecia uma oração ou um culto. Eu me sentei já observando onde era a saída. O pastor começou um discurso:

-Caros irmãos e irmãs. O senhor Jesus Cristo está aqui.

Olhei ao redor, mas não o reconheci. Não havia ninguém de túnica, olhos azuis e barba aparada igual nos filmes. Ele continuou. Falava como em um palanque:
-O senhor!

-Eu?

-Não, o senhor Jesus Cristo. Ele está aqui!

-Amém! Aleluia!

E começou uma gritaria. Eu pulei no chão:

-Não me digam que vocês estão rezando. Por que estão gritando? O pastor disse que ele está aqui! Por acaso ele é surdo?

Ninguém me ouviu. Nem eu mesmo escutei minha voz:

-Ei! Se vocês não pararem eu vou embora!

-Aleluia! Glória a Deus!

Eu me irritei e bati no banco com força. A reação foi seqüencial:

-Ahhh! Merda!

Todos calaram:

-Que caçamba! Porcaria! Esse...

Senti o silêncio. Todos estavam paralisados. O pastor se aproximou, me olhou nos olhos e pôs a mão em minha cabeça:

-Saia desse corpo! Ele não te pertence!

Ele me deu um tapa e eu caí todo estabanado. Lembrei de uma citação bíblica, algo do tipo “se baterem em sua face, ofereça o outro lado”. Me levantei:

-Bata aqui.

Assim que me deu outra bofetada eu pulei enfurecido sobre ele:

-Fiz tudo ao pé da letra! Agora deixa eu resolver contigo!

-Sai de mim capeta!

-Capeta é a mãe!
Duas mulheres gordas do coral da igreja me seguraram enquanto um velho que estava na primeira fileira acertava sua bengala na minha barriga. Eu derrubei as duas com um golpe e corri atrás do velho. Peguei a bengala e atingi Eustácio que vinha chegando por trás. Não sei como explicar, por três minutos eu derrotei todos que se aproximaram. Mas a igreja inteira veio de uma vez e eu parti em retirada. Corri assustado até minha casa. Demorei pra me acalmar. Depois disso, criei minha própria igreja: a “Igreja Privada do décimo sétimo dia de feriado”. É uma religião privada porque é no banheiro. Por incrível que pareça, eu consigo fazer mais barulho que Eustácio quando faço a “sessão do descarrego”.

3 comentários:

eu vestida disse...

Ahahahahahah. Muito engraçado!!!!!!
Não cairia numa dessas nem se o Brad Pitt nu me convidasse...

bruno disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
fora vergon ha q passei na lan... esse blog ta muito massa!!!

José Calvino disse...

Gostei do texto, é isso aí, MESMO!
Visitarei sempre o seu blog, ele é muito divertido...rsrsrs
Abração do,
José Calvino
Recife